Da Folha em preto, do Coturno em verde:
O senador Arthur Virgílio (PSDB-AM) já fala em deixar o cargo de relator da CPI das ONGs para viabilizar um acordo que permita a instalação da CPI da Petrobras."É uma coisa que pode até acontecer [deixar o cargo de relator], mas não será um acordo tão simples", afirmou.
Conforme amplamente anunciado aqui, o galo, novamente, virou galinha. Subiu no poleiro, cantou a plenos pulmões e agora já cisca no terreiro, garnizé que é. Haverá conluio, sim, mas depende do conjunto de benefícios, alguns secretos, como convém ao Senado, que virão no pacote de rendição oferecido à oposição.
Na próxima terça-feira, Virgílio vai ao plenário do Senado para discursar sobre o que considera ser fundamental investigar nas ONGs do país. No mesmo dia, ele realiza uma reunião com toda a cúpula tucana e lideranças do DEM, inclusive da Câmara, para fechar o discurso.A ideia é não dar mais pretextos para o governo adiar a instalação da CPI da Petrobras.
Será um discurso para registrar que a oposição, mais uma vez, abdica de investigar crimes conhecidos, com medo de que os mesmos respinguem nas suas botas. Aí a oposição se reunirá e avisará ao governo - indignada! - que não vai mais investigar a podridão das ONGs, para ter a chance de chafurdar na lama da Petrobras.Logicamente, como já declarou o presidente dos tucanos, senador Sérgio Guerra(PSDB-PE) há podres e podres, confirmando que a oposição vai mexer apenas naqueles que não prejudicam a empresa, uma categorização tão ampla como a que nos permite dizer que um senador de oposição pode ser um anjinho inocente ou um grande filho da puta.
O presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), disse que a decisão tomada pelo relator será acatada, mesmo que a oposição fique sem nenhum cargo de comando na CPI da Petrobras. "Vamos achar uma solução que deixe claro que são eles [aliados ao governo] que não querem a CPI".
Ou seja: teremos gritinhos na tribuna, tiques nervosos, apartes generosos, tempo estourado, golinhos de água mineral e a oposição vai entregar os anéis, os dedos e o traseiro político ao governo Lula, enterrando de uma só vez a CPI das ONGs e a CPI da Petrobras.
"Nunca vi tanta resistência [em instalar a CPI]. Alguém tem de ceder, porque o impasse é muito ruim para todos nós, inclusive para o Legislativo como um todo", completou o senador Álvaro Dias (PSDB-PR).
O senador paranaense ainda não conseguiu entender que a CPI só é ruim para o governo Lula, a não ser que ele esteja preocupado em revelar que recebeu doações de empresas ligadas à Petrobras, na sua campanha derrotada ao governo do Paraná. Será que alguma vez nestes oito anos de petismo, veremos a oposição oferecer a mesma resistência que a situação sempre demonstra? Ou teremos que conviver com a covardia dos tucanos e democratas por mais oito anos, tendo em vista que uma oposição medrosa não terá a mínima chance de eleger o próximo presidente?
A nova revelação de que existem atos secretos no Senado também pode ser usada como uma cartada por PSDB e DEM para pressionar o governo a instalar a CPI da Petrobras.Alguns congressistas apostam que o PMDB e, principalmente o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), optem por instalar a comissão rapidamente como forma de retirar do foco as irregularidades em nomeações e os benefícios aos servidores da Casa.
Se José Sarney tivesse este trunfo em suas mãos, se não fosse ele o principal envolvido nos últimos escândalos do Senado, mas sim um senador do PT, a negociação não seria em cima de CPI. Seria na base de três ministérios, cinco estatais e dezoito cargos de diretoria. A oposição, no entanto, está optando por entregar a relatoria da CPI das ONGs e abrir a CPI da Petrobras sem a presidência e a relatoria. Uma negociação histórica! Seria triste, se não fosse revoltante.