Em entrevista à Folha, senador Aécio Neves (MG), presidente nacional do PSDB, acredita que os
tucanos não devem "nem sequer pensar em cargos" em um eventual governo
capitaneado pelo hoje vice-presidente Michel Temer (PMDB). A fala coloca
um freio aos acenos de integrantes de sua sigla na direção do
peemedebista.
Em entrevista à Folha, Aécio critica o partido do vice e diz que o
PSDB não pode se aliar a uma gestão que não sabe "de que forma se
colocará". "O método será o que vigorou na última década, do qual o PMDB
foi parceiro?", indaga o tucano.
Para o senador, a ação que questiona a eleição de Dilma no TSE e o
processo de impeachment devem correr paralelamente. Ele diz que o
governo da petista "já não existe". "O que resta agora é definir qual é o
instrumento para que ela saia."
Após a realização dessa entrevista, na quinta-feira (17), Aécio enviou
um comentário sobre a troca de Joaquim Levy por Nelson Barbosa na
Fazenda: "A saída de Levy e a nomeação do 'arquiteto da nova matriz
econômica' sinalizam perigosamente na direção oposta ao necessário
equilíbrio das contas públicas. Foi, sem dúvida, uma vitória do PT, e
como sempre acontece quando o PT vence, quem perde é o Brasil."
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Folha - Que balanço o sr. faz desse ano?
Aécio Neves - O governo da presidente Dilma acabou. Esta é a
constatação. E acabou de forma trágica, fez o Brasil retroceder 20 anos
nas conquistas econômicas, na credibilidade e também nas conquistas
sociais, na vida das pessoas. Vamos ter um desemprego de mais de 10% e a
inflação também acima de 10%. O conjunto da obra é algo que talvez nem o
mais pessimista dos brasileiros imaginaria. O que resta agora é definir
qual é o instrumento para que ela saia. O governo já não existe.
Muita gente vê nesse discurso o sinal de que a eleição de 2014 não acabou.
Ao contrário. Telefonei para a presidente e reconheci a derrota. Hoje
temos a tempestade perfeita, mas ela foi construída com a
irresponsabilidade do governo aliada à sensação de impunidade que
permitiu o maior saque aos cofres públicos de que se tem notícia. O
descumprimento das leis de Responsabilidade Fiscal e Orçamentária foi
feito de forma deliberada para ganhar a eleição.
Mas os atos que embasam o pedido de impeachment são suficientes para afastar uma presidente que foi eleita?
A questão é: o voto legitima o mandato? Legitima, desde que alcançado de
forma lícita. A LRF foi descumprida. Bancos públicos não podem
financiar os seus controladores. A presidente pode criar decretos sem o
aval do Congresso? Não. Pela legislação atual, é suficiente. O TSE
(Tribunal Superior Eleitoral) investiga se houve propina na campanha e
abuso de poder político. Não se pode dizer qual será o caminho, se
impeachment, cassação da chapa eleitoral ou renúncia, mas acho que a
presidente não governará o país por muito mais tempo.
Os presidentes da Câmara e do Senado estão sob investigação. Esse Congresso tem autoridade para afastar Dilma?
Esse Congresso foi eleito. E enquanto não houver o afastamento de
algumas dessas pessoas é ele que deve cumprir sua missão constitucional e
julgar o impeachment. É óbvio que hoje o Congresso está maculado mas,
ao meu ver, isso não retira da Câmara no seu conjunto, e tampouco do
Senado, as suas prerrogativas constitucionais.
O PSDB se aliou à agenda de Eduardo Cunha. O partido demorou a perceber a quem estava se alinhando?
Ouço a crítica com humildade, mas tenho o dever de relembrar, até para
registro histórico, o comportamento do PSDB. O PSDB não apoiou a
candidatura do Eduardo Cunha à presidência da Câmara. Apoiou a do Júlio
Delgado (PSB-MG).
Quando Cunha vence, se coloca como oposição e oferece, à luz do dia,
espaços de atuação política ao PSDB —relatorias, vagas em CPIs... Tudo à
luz do dia. No momento em que vieram as denúncias, fui o primeiro a
dizer que eram graves. Quando vieram as respostas, também disse que elas
eram insuficientes e que, não havendo justificativa aceitável, a nossa
posição era pelo afastamento do presidente da Câmara.
Hoje ele atrapalha o andamento do impeachment?
Acho que a situação dele chegou a um ponto insustentável. As denúncias
se avolumam, as respostas são muito pouco consistentes e o processo do
Eduardo Cunha, de alguma forma, se coloca como diria o poeta da minha
terra: 'No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do
caminho'. Tem o Eduardo Cunha no meio do caminho e essa questão terá que
ser resolvida.
O presidente do Senado também é investigado.
Tem que ser apurado. O que houve é que o episódio do Eduardo Cunha
contaminou excessivamente outros processos na Câmara. Existe mais luz,
digamos, colocada sobre ele. Mas todos têm que responder.
O sr. fala do impeachment, mas ressalta a possibilidade de cassação no TSE. Essa instabilidade não é sacrificante?
Sacrificante é não se cumprir a lei. Esse é o pior dos desfechos. O
julgamento do Supremo que estabeleceu o rito do impeachment jogou por
terra o discurso do golpismo. Não há golpismo com a participação do STF.
E as coisas correrão paralelamente. Por isso a preocupação do
vice-presidente Michel Temer em tentar descolar sua prestação de contas
eleitoral da presidente, o que, ao meu ver, não tem sentido.
A decisão do STF foi vista como uma vitória do governo...
Vitória de Pirro. O essencial não mudou e a presidente continua incapaz
de inspirar a confiança mínima que seria necessária para que a roda da
economia voltasse a girar e a sangria dos empregos fosse estancada. Além
disso, o efeito colateral pode não ser agradável, com as atenções se
voltando para o TSE.
O sr. será candidato ao Planalto numa eleição tampão?
O PSDB terá candidato quando as eleições ocorrerem. O que não falta são
nomes. O partido vai saber definir na hora certa. É obvio que tanto eu,
como o governador [de São Paulo] Geraldo Alckmin, o senador José Serra e
outros governadores temos que estar prontos para isso.
Alguns tucanos defendem que, se houver impeachment, o PSDB deve integrar a gestão Temer. O sr. concorda?
Apoiamos o impeachment porque estamos convencidos de que a presidente
cometeu crimes que o justificam, mas, acontecendo o afastamento e
assumindo o vice, passa a ser dele a responsabilidade de propor um novo
projeto. A posição da maioria do partido e a minha é de que não devemos
nem sequer pensar em cargos. Não nos negaremos a ajudar o Brasil naquilo
que for essencial, mas será muito mais confortável fazermos isso por
meio de uma agenda, sem pensar em participar de um governo que não
sabemos de que forma se colocará.
Como assim?
O método será o que vigorou na última década, do qual o PMDB foi
parceiro? Da distribuição de nacos do poder sem qualquer critério? Não
falo de um passado remoto, falo de meses atrás. Com a participação do
PMDB, a máquina pública vem sendo degradada, ocupada, assaltada por
membros de várias forças partidárias. O PSDB não pode perder a
referência que tem hoje e não colocará a sua determinação de construir
um novo modelo de país para ocupar cargos. Isso não significa que vamos
virar as costas para um eventual governo do vice.
Qual a impressão pessoal que tem de Temer?
O presidente Michel é um homem de bem, cordato, afeito ao entendimento.
Mas, até aqui, ele foi um instrumento desse governo que acabou com o
Brasil. Ele foi um parceiro permanente e ativo da gestão que fez o
Brasil retroceder 20 anos.
Julga que ele terá condições de governar o país?
Se for para manter esse 'modus operandi' no qual o PMDB se especializou
ao lado do PT nesses últimos anos, terá muitas dificuldades. Tenho
respeito pessoal pelo presidente Michel, mas ele terá que demonstrar um
rompimento claro com tudo isso para ter o nosso apoio. E tenho uma
convicção pessoal: só enxergo o Brasil resgatando sua credibilidade e
esperança no momento em que um novo governo for eleito. E, obviamente,
essa legitimidade do voto faltará ao presidente Michel.
Em 2005, quando houve o mensalão do PT, o PSDB optou por não pedir o impeachment de Lula. Agiu certo?
Me incluo entre essas pessoas e hoje somos muito cobrados por isso.
Naquele momento, não tínhamos o sentimento de que havia essa operação
sistêmica montada no Estado brasileiro. O Lula representava mais do que
uma candidatura do PT: ele era a ascensão de classes, tinha uma carga
simbólica. Certo ou errado, foi o que fizemos. Não desejo mal ao
ex-presidente. Ele próprio se encarregou de jogar fora grande parte da
sua biografia.
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RAIO-X
Idade 55 anos
Cargo Presidente nacional do PSDB e senador por Minas Gerais
Outras eleições Governador de Minas (2003-2010), deputado federal (1986-2002), presidente da Câmara (2001-2002) e candidato ao Planalto em 2014