Dilma no país das maravilhas.

Artigo de Guilherme Fiuza, publicado hoje, em O Globo.

Os brasileiros estão encantados com as manifestações de rua no Egito. Nem bem Dilma Rousseff assumiu a Presidência, Hosni Mubarak tomou conta das manchetes. Deve ser difícil viver num país cheio de pirâmides e problemas. Por aqui está tudo bem. A “presidenta” assumiu e sumiu. Ninguém sente falta. Dilma acionou o piloto automático e foi cuidar de suas pirâmides.

Uma das mais visíveis fica na Câmara dos Deputados, e não é obra de Niemeyer. Num impressionante trabalho de engenharia, a “presidenta” colocou no alto da comissão mais importante do Legislativo uma peça de colecionador. Importado diretamente do escândalo do mensalão, João Paulo Cunha será o presidente da Comissão de Constituição e Justiça. Nada mais justo. A comissão que decide o que poderá ou não ser lei no país tinha mesmo que ficar nas mãos de um réu. É uma questão de notória especialização.

O PT também está muito interessado nas manifestações populares no Oriente Médio. Quanto mais o Brasil olha para lá, mais fácil fica a reabilitação de seus faraós por aqui. José Dirceu e Delúbio Soares já estão se aquecendo à beira do gramado. Erenice e sua pirâmide familiar terão que esperar um pouco mais. Mas o gerente da Caixa Econômica que violou o sigilo do caseiro já está na área: foi nomeado assessor do Gabinete Pessoal de Dilma Rousseff. Como se vê, os egípcios estão em maus lençóis.

A opinião pública está cada vez  mais fascinada com tudo que Dilma não fala. Dizem que é o silêncio de quem trabalha. É verdade. A “presidenta” trabalhou como ninguém para manter o faraó do Maranhão na presidência do Senado. As sete vidas de José Sarney no poder têm hoje o PT como principal acionista. É um investimento plenamente justificável: um político que é flagrado fazendo tráfico de influência e se mantém intocável tem mesmo é que comandar o Poder Legislativo. De lei ele entende.

Na pirâmide de Sarney, além dos simpatizantes empregados no Senado, tem ministro de Estado. Seu afilhado mais célebre no momento é Edison Lobão, o explicador de apagões. Se o Brasil ficar às escuras de novo, ninguém precisa se preocupar, porque Lobão já tranquilizou todos: “O sistema é robusto.” Para o sujeito que está preso no elevador, não pode haver alívio maior do que saber que o sistema é robusto.

Essa robustez teve grande impulso na gestão de Dilma como ministra de Minas e Energia. Como especialista em gestão, ela comprimiu as tarifas para o consumidor sentir toda a bondade do governo popular — seguindo a escola dos Kirchner, o casal que levou a economia argentina ao pântano. O setor elétrico buscou então a solução mais criativa contra a falência: parar de investir no sistema.

Isso não chega a ser um problema, quando se tem um ministro eloquente e bem apadrinhado como Lobão. Agora a conta da Light vai subir acima da meta de inflação, mas tudo bem, porque o sistema é robusto.

Sob um governo que trabalha em silêncio, a população pode dormir em paz. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, por exemplo, anunciou na posse que vai espalhar UPPs “pelos quatro cantos do país”. Não se sabe exatamente o que significa essa precisão científica toda, mas também não interessa. Depois que as tropas de elite passaram a vender as armas do tráfico para as facções rivais, o ministro não disse mais nada. Deve estar em algum dos outros três cantos do país, talvez pedindo conselhos ao Capitão Nascimento.

Mesmo com toda essa eficiência, silêncio tem limite. E Dilma resolveu falar. Convocou cadeia nacional de rádio e TV para um pronunciamento à nação. Devia ser algo muito importante, a ponto de levá-la a interromper sua rotina laboriosa. Quem sabe, era o momento de tirar o véu por sobre os grandes projetos que o Brasil resolveu imaginar estarem sendo geridos pelo novo governo. Mas não era bem isso.

Forjada na lábia populista de Lula, Dilma estava com saudades dos comícios — que, como se sabe, são a alma do negócio. Ela caprichou. O gancho era um programa de apoio ao ensino técnico, desses que se anuncia com um press-release do segundo escalão. Naturalmente, o tal programa tomou só alguns segundos do pronunciamento à nação. A grande mensagem da “presidenta”, essencial e inadiável, era um paralelo conceitual entre educação e pobreza (a especialidade da casa). O Brasil foi convocado a ver e ouvir Dilma Rousseff explicar que o país tem agora que enfrentar a “fome do saber”.

Não se sabe o que seria desta pobre nação sem os slogans do PT. Depois dessa emocionante ordem unida em cadeia nacional, teremos certamente um sistema educacional robusto. E tecnologias como a do Enem e do Sisu serão espalhadas pelos quatro cantos do país.

Quem depois disso continuar com fome de saber que vá se alimentar do noticiário sobre o Egito. Por aqui, estamos de barriga cheia.

GUILHERME FIUZA é escritor.

20 comentários

Coronel,
quanto tempo não víamos um artigo, publicado na mídia, mais precisamente em um jornal de grande circulação, com tamanha contundência e coragem. Coragem que a maioria da imprensa e dos jornalistas deixaram de ter ou se $$$ ajoelharam. Parabéns ao Fiuza e ao jornal.

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Sem falar que, enquanto Mubarak perdia o Palácio, aqui, em banânia, o vigliacco vai ganhar um.

Nois é nóis, é o num é?

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Foi nisso que o Velhaco transformou o Brasil. Tudo pode ser feito, quanto mais agredir as leis e os costumes melhor. O povo aparvalhado aplaude os bandidos petralhas. O velhaco trouxe de volta a inflação, sua grande obra não registrada. Que tal um abaixo assinado para ele incluir? Velhaco sem limites, o povo deveria começar a reconhecer sua grande obra e vaiá-lo sempre que aparecer em público. Já reparou na tralha que o acompanha sempre? Ninguém tem vergonha.

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Cel,
olha aqui o Ministro da Doença "lançando" o Cartão Nacional de Saúde - Cartão SUS. Ainda não contaram para ele que é notícia requentada do vaporware que consumiu meio bilhão de reais para distribuir cartões de cartolina para os usuários do SUS. Claro, eficiência mesmo só na distribuição de cartões corporativos.


http://oglobo.globo.com/pais/mat/2011/02/06/piaui-sera-primeiro-estado-com-cartao-sus-ainda-no-primeiro-semestre-de-2011-923745681.asp

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Parabéns ao Guilherme Fiuza e ao Jornal O Globo pela coragem.

Mostrou que não é como a maioria da imprensa que pratica genuflexão diante deste desgoverno.


Chris/SP

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MUITO BOM!!!!!!!!!!!!!!!
DISSE TUDO....

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Nada a acrescentar.
Resta saber como ele suportará a patrulha ideológica dentro da própria casa onde trabalha...

¬¬

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Belo texto!

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Será que o Mubarak vai aboletar-se na embaixada no Cairo? Ou aparecerá, de surpresa, em alguma UPP? Ou no Sambódromo?

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O texto é muito bom.
Bem escrito e no alvo certo.
É incrível, não é? O que está no artigo do Fiuza parece tão óbvio. E é óbvio! Só as nossas elites é que não percebem, particularmente a imprensa(será que jornalistas são parte da elite de um país??? Hahaha!)
Tá todo mundo atrás de uma boquinha pra se dar bem.

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Na veia, Guilherme! Parabéns!

Lucia

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Excelente! Excelente!

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Lá vai o BRASIL, descendo a ladeira.


Izabel

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Onde devo assinar?

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Post muito confuso e muitos assuntos a tratar, a ditadora do blog tenha sua opinião e mande ao Coronel, sem internet própria, roubando sinal para comentar e propor a revolução, sempre tem as estrelas que querem ser os pais da criança, nada para ajudar na empreitada revolucionária.

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Quem seria o eunuco a abanar todos esses Faraós ???

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Texto de gênio. Realidade de burros (nos, brasileiros).

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Caro Coronel,

este é um texto histórico, extremamente bem escrito e de uma abrangência fenomenal.

trata com ironia ímpar a maioria das barbaridades às quais estamos expostos hoje em dia.

Que Guilherme Fiuza continue firme em seus propósitos: escrever a verdade.
E que nosso Coronel continue também firme, dentro de seu Coturno Noturno, a nos brindar com essas pérolas!

Obrigada Coronel!

Flor Lilás

ABAIXO O NULLO
CADEIA A ZÉ DIRCEU E MENSALEIROS

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Surpresa nenhuma. O texto do Fiúza sempre é preciso e matador. Top de linha da mídia nacional. Pena que a área de comentários do seu blog seja um espanto. Nao dá para frequentar nem sob ameaça de tortura.

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Muito bom artigo! Foi num foi nossa imprensa moribunda dá sinal de vida... e inteligente por lá!

A Rainha de Copas faz por merecer o bom e velho ditado "me diz com quem andas que te direi quem és" não é mesmo! Ela está cercada por pessoas de inidôneas, mas tão inidôneas... que até o diabo é mais honesto.

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